Quando se trata de intolerância todo mundo sofre, inclusive aquele que não tolera ninguém!
Muito tem se falado de intolerância, especialmente porque vivemos tempos de extrema polarização a respeito de tudo! Especialistas apontam diferentes razões para essas polarizações: desigualdade social e econômica, ciclos históricos que de tempos em tempos trazem os fascismos e totalitarismos das sociedades à tona e as redes sociais como promotoras de ideias e fake News!
Mas quero falar sobre como a intolerância afeta nossa saúde mental, gera sofrimento e degenera nossas relações humanas. Alguns tem o privilégio de se afastar daqueles que machucam com preconceitos e a partir desta distância tratar as marcas da violência que a intolerância causou. Porém, alguns não possuem este espaço e conviver é necessário. Como faz então para manter nossa saúde mental em um meio que não sou tolerada, mas também não consigo tolerar?

A humanidade caminha para uma progressão da diversidade. Mesmo com todos os perrengues, retrocessos e desafios que precisamos vencer, mais do que nunca a humanidade reconhece os direitos das mulheres, das populações LGBTQ++, negras e indígenas e demais grupos que sofrem preconceitos devido a sua origem, aparência, fé ou gênero!
Há sim aqueles que pensam que esses preconceitos nunca existiram ou que falar muito neles pode ser pior. Porém, temos atualmente os maiores números da história de manifestações de pessoas denunciando violências que viveram, de países investindo em políticas públicas de reparação e de movimentos sociais ganhando força e voz!
Pode ser que você discorde. Acha que nunca tenha vivido nenhum tipo de ré na vida por sua origem, aparência ou gênero. Mas me permita discordar de você. Primeiro que sou mulher. Tenho muitas cicatrizes das violências de gênero que experienciei. Em segundo lugar, para não ficarmos apenas no contraponto de minha experiência versus a sua, tem uma coisa chamada ciência. Esta não nega nada. Pode até nos confundir e contrapor às vezes, mas nesse assunto a ciência já está cansada de falar: desigualdades existem, matam, machucam e sua razão é a intolerância!
As intolerâncias nos cercam e convivemos com ela de diferentes formas. Geralmente as intolerâncias têm suas raízes em grandes eixos de preconceito como os mencionados acima. A filha que nunca tem muita voz na família porque é “menina”. A pessoa que não é contratada porque não é bonita segundo os parâmetros hollywoodianos. Os pais que não aceitam a sexualidade dos filhos. Aquele emprego que você não consegue devido ao seu sotaque. As coisas que as pessoas assumem de você devido à cor da sua pele. E por aí vai! E “só” estamos falando dos eixos de preconceito das questões de gênero, raciais e xenofobia.
E como tudo isso gera sofrimento? Muitas vezes falamos sobre os preconceitos como uma entidade distante, como se eu estivesse aqui e isso acolá! E na verdade não é assim que funciona. Os preconceitos se enraízam na nossa personalidade e vão se alastrando internamente, como um bicho com grandes tentáculos. Assim, acabam por guiar as nossas palavras, sentimentos e decisões na vida. Até mesmo você aí que faz parte de um movimento que luta contra preconceitos, pode ser que você seja intolerante a muitas pessoas e o ódio está constantemente guiando suas palavras.
O problema dos preconceitos é que eles nos machucam tanto, nos deixam tão duros com nós mesmos e os outros, que em determinado momento revidamos na mesma moeda. Diante de todo aquele que pensar diferente de você, você vai vomitar suas certezas de uma forma que diminua as certezas do outro. E para garantir o sucesso vai achar formas de diminuir o outro, pois você precisa vencer essa batalha!
O preconceito adoece por outros caminhos também. Pode ser que você não seja a pessoa que revide, mas você resolveu se calar! Foram tantas pisoteadas na vida que o melhor é ficar acuado num canto, não é mesmo? Para que expor sentimentos ou ideias se essa batalha já foi perdida faz tempo?
E assim os preconceitos nos adoecem e nos deixam intolerantes contra tudo e contra todos. A verdade é que nós brasileiros somos é uma sociedade extremamente violenta. Desde o seu início, lá quando aquela galera chegou de Portugal, as relações humanas se estabeleceram a partir da exploração do outro. E para explorar você precisa apontar que o outro é mais fraco que você e por isso não possui valor. E se não tem valor, sua existência não é importante. Ou seja, nos desenvolvemos como sociedade a partir de uma premissa de diferença, hierarquia e diminuição do outro.
Quando falo de violência, não me refiro apenas ao assalto ou ao homicídio. Falo de relacionamentos em que tudo é decidido no grito; em que não há espaço para explicações ou questionamentos. Quantas são as pessoas que já possuem sua vida decidida muito antes de nascer? Afinal, para muitos, se você não casar, não ter filhos e nem ser hétero significa dizer que você deu errado. A mesma coisa se você nasceu pobre, em situação miserável. Vai ter quem diga que vai ser assim para sempre, porque alguém quis assim e, portanto, você precisa aceitar. “É melhor aceitar que dói menos”, como dizem.
Uma vez que nos tornamos mais conscientes dessas intolerâncias, dos preconceitos que nos machucam e machucam pessoas que amamos temos a tendência a reagir. E de forma violenta. Como não aprendemos a dialogar durante a vida ou mesmo até a refletir a partir dos livros, tendo uma consciência histórica desses problemas, lidamos no grito, nas mensagens de whatsApp ou nos reposts das redes sociais.
No entanto, o que gostaríamos mesmo era poder sentar numa roda de conversa com quem amamos e ter um bom papo. Sem que precisássemos diminuir alguém por suas conquistas, aparências, experiencias ou gênero. Nós ansiamos por isso. Até aquela pessoa turrona que em um minuto de fala deve cometer mais de dez crimes relacionados a misoginia ou racismo.
Porque lá no fundo tudo que buscamos é sermos aceitos do jeito que somos. Para muitos isso significa ser amado. E como alcançamos isso, então? Primeiro se conheça. Busque ajuda para lidar com sua história e os machucados que a intolerância lhe causou. Você não está sozinho nessa. Todo mundo está no mesmo balaio, até aquele cara branco, hétero, bonito hollywoodianamente e machista. O machismo não poupa ninguém: mata mulheres e corrói os homens por dentro. E aí vem a parte que considero mais complexa: precisamos aprender a falar, a dialogar com as pessoas a partir de questionamentos. Precisamos nutrir genuíno interesse no que o outro está falando e vontade de conhecer história daquela outra pessoa. Ah! E uma dose de paciência, pois estamos todos aprendendo e em diferentes estágios.
Ser tolerante é ouvir as afirmações do outro, concordar ou discordar. Se você não curte que o outro lhe fala e logo se ofende, fica dando trela e entrando quase que numa rinha de galo seja ela presencial ou virtual, isso não é ser tolerante. Tudo bem que nessa caminhada erramos. E vamos errar muito! Estamos falando de coisas que nos machucam demais! Porém, se queremos ser uma sociedade mais civilizada, precisamos começar tratando nossas feridas. Precisamos estar abertos a ouvir e interagir com aqueles que também pensam diferente de nós.
Quais os limites? Isso já sabemos: homofobia, assédio, xenofobia e etc são crimes e a melhor forma de enfrentá-los é denunciando e continuar lutando pela garantia de direitos!
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