
Parte da história de Cheryl Strayed é a minha, e pode ser que seja a sua também. É por isso que se conta histórias através de livros ou filmes, pois não é só a história de alguém, mas de muitos. Quando tive que enfrentar a perda mais significativa da minha vida, a morte de meu pai, não havia livro ou filme que realmente me ajudasse a entender a seguinte mazela: a morte. Eu entrava oficialmente para o grupo de pessoas que haviam perdido alguém muito importante na vida e um divisor de águas acontecia. Aleatoriamente em 2015 o filme “Livre” parou nas minhas mãos assim como o livro em que o filme é baseado, a jornada de uma mulher caminhando numa das maiores trilhas (Pacific Crest Trail) dos EUA sozinha por mais de 3 meses, tentando entender a morte de sua mãe e as escolhas que fez na vida após essa perda. Lembro de quando li a última pagina do livro, me deitei na cama e chorei por horas, pois a morte de meu pai tinha mudado algo profundamente em mim mas não sabia dizer o que era. Um misto de cansaço com paz, havia a tristeza da falta de sua presença, mas havia uma estranha paz. Naquelas horas chorando após ler 360 páginas, eu entendi o cansaço, até ali estava numa corrida insana tentando descobrir o sentido da vida. Era no trabalho? No casamento? Na casa própria? Perder alguém importante me ensinou que as pessoas realmente se vão, o tempo aqui é curto e não sabemos o amanhã, isso se tornou tão real naquele momento que eu podia tocar nas palavras, era concreto. E de forma surpreendente a morte me ensinou o sentido da vida: as pessoas e o tempo que temos com elas. E assim fechou-se um capítulo da minha vida, nunca pensei em visitar os cenários do filme. E hoje estou aqui na “Bridge of Gods”, na cena final do filme, a mesma cena descrita no livro que me ajudou atravessar uma das pontes mais difíceis da vida. Um ano atrás eu nem sabia se estaria nos EUA direito, não tinha muito noção dos rumos da vida. E o universo me trouxe aqui hoje, não sei se para relembrar as pontes que atravessei ou só para me abraçar, pois foi isso que senti: um abraço do tempo, do universo, da vida como ela é. Eu abracei de volta e falei: Obrigada pelo privilegio de tão cedo conseguir entender o que vale a pena perseguir: o tempo com as pessoas!
