
Psicólogas não leem as mentes, é muita observação, escuta e estudo mesmo!
Muitas pessoas questionam psicólogas o que acontece numa sessão de psicoterapia. Existe uma crença popular que, em uma sessão de terapia, a pessoa só fala e a profissional só escuta. É falar o tempo inteiro, desabafar, etc.
Na verdade, em uma sessão, a psicóloga deveria conduzir a terapia dentro de um método. Cada método estabelece tempos de fala, aplicação de instrumentos e direcionamento das reflexões.
Eu vou explicar aqui como se dá a estrutura da sessão na linguagem da Terapia Comportamental Cognitiva com a qual eu trabalho.
Em uma primeira sessão o objetivo principal é colher informações básicas da saúde e estilo de vida do cliente: profissão, formação, condições de saúde, hábitos, etc.. Chamamos isso de anamnese e é uma prática comum a todos os profissionais de saúde.
Depois partimos para o que chamamos de “queixa”. Isto é, o que traz o cliente à psicoterapia: problemas interpessoais, ansiedade, tristeza, habilidades sociais, orientação profissional, transtornos mentais, etc..
Nós psicólogas procuramos nas primeiras sessões investir em “rapport”, que é deixar o cliente à vontade e estabelecer um vínculo de confiança. Quando se ouve que na terapia “é só falar sobre a vida”, parece fácil. Porém, sabemos que se sentar diante de um estranho e abrir seus segredos e pensamentos não é tarefa fácil não.
Durante uma sessão, a partir da queixa do cliente, em sua mente a psicóloga está raciocinando as seguintes etapas: queixa, contexto ambiental dos problemas, pessoas envolvidas, emoções do cliente diante do problema, as interpretações, as origens do problema, entre outros elementos.
Imagine a mente de sua psicóloga assim: vários círculos vão se formando, cada um representando um dos elementos acima, sendo que ela vai em busca das conexões entre os círculos e como juntos todos contribuem para a manifestação da queixa.
Uma vez que a psicóloga conecta os pontos e elabora hipóteses sobre a causa do sofrimento, e ela vai tentar fazer isso bem mais rápido que você, ela parte para as técnicas que lhe ajudam a compreender todo esse sistema que causa seu sofrimento. Pode ser em formas de questionamentos, técnicas de registro, role play, atividades ou biblioterapia. Todas essas técnicas foram estudadas e experimentadas em diversas formas de estudos e passaram pelo crivo da comunidade científica.
Mas por que ela não fala de uma vez o que pensa e aponta as hipóteses?
Já ouviu falar na expressão “se conselho fosse bom se vendia?”. Então, a psicóloga aprendeu, por meio de várias teses científicas que provaram por A + B, que não adianta você falar para alguém o que fazer. O que pensamos sobre nós mesmos, os outros e o mundo é um constante processo de aprendizagem que se dá pelas experiências da vida. Tudo contribui para esse contínuo processo: aquela conversa com seus amigos, a informação obtida da internet, suas leituras, seus relacionamentos, as atividades culturais e a mais importante: saber elaborar boas perguntas. Quando se trata do psicológico, a maioria das coisas não se dá por causa e efeito. Existem muitas variáveis que contribuem para o nosso jeito de pensar.
A psicologia não ensina somente métodos de mudança de comportamento (entenda comportamento aqui como pensamentos, emoções e ações). Para sabermos quais comportamentos precisam ser reaprendidos, a psicologia vai caminhar em várias teses de conhecimento filosóficas e sociológicas. Da mesma forma, para que saibamos como um comportamento é ensinado e aprendido em sociedade, precisamos investigar também os campos da anatomia e fisiologia humana.
Então como mudamos o jeito de pensar e sentir algo? Usarei como metáfora o aprender um novo idioma. Quando você está aprendendo um novo idioma precisa usar de vários recursos, falar centenas de vezes a mesma palavra, ler, escrever, cantar músicas e por aí vai. Mas você memoriza mesmo uma palavra em outro idioma quando ela faz sentido para você. É como se você andasse numa estrada de pista única, só português passa ali. Até que você se encontra num restaurante e é obrigado a pedir água. Olha no Google, fica nervoso, o garçom surge do nada e sai da sua boca: WATER!
E a estrada de repente se abre para uma pista dupla; se alarga, se expande. Não passa mais só o português ali, passa também o inglês. Water está correndo nessa estrada também. E sabe por que você não esquece? Porque foi sobre o dia que você estava num restaurante diferente, que você teve uma emoção angustiante e conseguiu falar com um garçom estrangeiro. Você associou ali imagens, emoções e sentidos. Por isso não esquece!
Não é diferente com o jeito que pensamos e nos causa sofrimento. Para algumas coisas na vida temos uma estrada de pista única no jeito de pensar. Estou constantemente tentando abrir outras estradas com você e assim você pode aprender diferentes idiomas sobre as coisas que te causaram ou causam sofrimento.
Existe também um trabalho extensivo do psicólogo fora da sessão. Lê-se muito, escreve-se sobre os casos, faz-se supervisão clínica; porque a profissional também precisa trabalhar na abertura constante de novas estradas.
Se você me perguntar o que é mais importante na terapia, eu te digo: paciência no processo terapêutico! Tem coisas que não vamos mudar do dia para a noite e às vezes abrir novas estradas requer muito trabalho! E isso causa desconforto e cansaço! Para ambos os lados: cliente e psicóloga!
Mas as histórias que a psicóloga ouve a afetam? Depende. Toda psicóloga que atua na clínica deve estar fazendo terapia também! Para que suas estradas não sejam as dos clientes e vice e versa. Somos treinadas para que na sessão o foco seja a condição do cliente e o que esse precisa no momento. Na sessão não é lugar para as questões da psicóloga. Esse lugar é na terapia dela!
Obviamente que, ao longo do processo terapêutico, a profissional desenvolve grande estima aos seus clientes. No entanto, trabalha constantemente para que sua atuação seja em direção à liberdade e à autonomia da pessoa; para que em determinado momento a pessoa não dependa mais da terapia.
Meu trabalho me cansa como qualquer outro e me exige muito estudo e qualificação. Porém, encaro de frente o maior privilégio da minha profissão: diariamente ser escolhida por seres humanos incríveis que toparam dividir suas biografias! E por isso os agradeço eternamente!

“Sempre pergunto para o cliente sobre o que eu disse: Faz sentido para você? Porque para cada indivíduo as coisas possuem um significado diferente, e quem sabe isso seja uma das coisas mais difíceis de lidar na vida: as coisas possuem significados diferentes para cada um!”
Susana Soares
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