A série The Dropout (Star+) e o documentário sobre Elizabeth Holmes (HBO) mostram a história de uma mulher que propagava uma ciência fantasiosa. Elizabeth e sua empresa (Theranos) propunham testar centenas de doenças a partir de uma gota de sangue.
Elizabeth foi bem-sucedida por um tempo! Quase uma mente genial no que tange ideias e marketing. Porém, onde Elizabeth errou? Não acho que podemos aprender com o “sucesso” dela, a lição preciosa está onde ela tropeçou feio: pulou “Steps” (Passo-a-Passo ou etapas)!

Elizabeth foi considerada um prodígio e a nova “Steve Jobs” na época pelo Vale do Silício. Não vou me ater aqui os inúmeros fatores que “fabricaram” uma Elizabeth: sua infância, falência do pai e a cultura das startups + vale do silício = a síndrome do brilhantismo que brota naquele lugar como chamas vulcânicas. Quem conhece bem as leis do capitalismo sabe que lá nada tem de muita novidade. A diferença está em ritmo e jogos de poder bem executados.
Elizabeth aos 18 anos entrou em Stanford para cursar engenharia química determinada a se tornar bilionária. Era uma excelente aluna e aos 19 anos teve o início das ideias que contribuíram para a criação da tecnologia Theranos. Largou a faculdade e vendeu a ideia para vários homens brancos, bem mais velhos e ultra milionários (coronéis do mercado americano de investimentos em tecnologias) e contratou cientistas para desenvolverem o dispositivo.
Não existe nenhum problema em largar a faculdade para investir em seus sonhos. Temos dezenas de exemplos de mentes brilhantes que aprenderam ciência em casa e fizeram grandes descobertas. O problema de Elizabeth era a pressa! Seus cientistas, amigos, professores e colaboradores constantemente lhe alertavam que existiam Steps a serem cumpridos, que precisava estudar a tecnologia que queria desenvolver, respeitar as fases de experimentos e que não podia vender algo que não existia.
A ideia dela era ótima! Imagina com uma gota de sangue poder fazer a análise clínica de várias doenças? Uma enorme economia e agilidade para sistemas de saúde! Mas, isso implica em uma tecnologia tão complexa que estamos falando de 20 a 30 anos de pesquisa! Elizabeth queria em menos de uma década!
Ela conseguiu! Ela conseguiu vender a ideia! Teve investidores colocando bilhões de dólares e sua máquina estava em farmácias testando milhares de pessoas nos EUA. Porém, milhões de dólares foram desperdiçados no processo, e usuários dos testes de sangue, incluindo um paciente com câncer, disseram ter sido vítimas de diagnósticos equivocados. E mais, em Theranos, parte das análises eram feitas escondidas, no porão com a tecnologia clássica de analises clínica, pois a máquina vendida por Elizabeth não entregava o que propunha.
Não sejamos “os velhos” que culpam os “jovens” por não saberem esperar. Primeiramente, quem custeia estes “jovens brilhantes” são os velhos. Portanto, estamos ensinando jovens que processos de aprendizagem demandam etapas? Nós “velhos” lembramos que sabemos o que sabemos, pois nos demandou muita repetição?
Elizabeth não queria repetir! Nos tornamos muito habilidosos em algo quando estudamos, testamos suposições em comunidade, executamos, repetimos, erramos ou acertamos, repetimos e segue assim por um bom tempo. Hipóteses precisam ser testadas e gerar um mesmo resultado múltiplas vezes para que possamos comunicar uma certeza. Mesmo assim, a certeza pode durar segundos quando as variáveis “circunstâncias” mudam e viram o jogo.
A pressa pelo sucesso e a descoberta que pode mudar o rumo da humanidade pode ser a maior pedra de tropeço para um inovador. É difícil quantificar o equilíbrio aqui, a humanidade criou coisas extraordinárias devido a ousadia de muitos. Mas, aquilo que ficou geralmente seguiu os Steps necessários para ser executado, testado, repetido e efetivado. E ciência se faz com a contribuição de milhares de outras cientistas. Se você desenvolver algo hoje é porque já existe uma base de dados colecionados para que você possa se apoiar. Base esta que levou por vezes, a vida inteira de uma cientista para ser consolidada. Elizabeth não gostava de dados, do tempo e de consultar quem sabia mais que ela. Ela só gostava da ideia do lugar de poder que ocuparia se conseguisse entregar “a máquina”.
São princípios básicos da vida nesse planeta, você pode não gostar, mas não adianta lutar contra. Elizabeth quis driblar essa lei natural e apelou para a mentira. Não teve acesso a um ditado brasileiro que poderia ter lhe ajudado a repensar:
“A mentira tem perna curta”
A lição não fica só para o universo da ciência, mas para nossas vidas. Tem coisas que você vai levar tempo para aprender, pois o aprendizado está na repetição e testagem! Não adianta ter pressa!
Anos após o colapso da Theranos, Holmes foi condenada pela Justiça da Califórnia, por fraude eletrônica e conspiração para fraude.
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