A depressão é hoje uma das três principais causas de afastamento do trabalho no Brasil e no mundo, tendo já passado por algumas fases. No início, o assunto era mais estimagtizante, impedindo as pessoas de buscarem ajuda, gerando vergonha e rótulos de loucura. Depois, passamos a ganhar mais espaços de escuta e as pessoas passaram a entender que está tudo bem buscar suporte. Portanto, temos observado a depressão se tornar uma epidemia, estando hoje na beira da banalização: transita entre “fazer o quê? todo mundo tem! é “falta foco, força e fé; se esforça mais”.

Existem muitas explicações para as causas da depressão: histórico familiar, eventos traumáticos, perdas e combinação de fatores. Sabemos que é causada por uma combinação de fatores biológicos, ambientais e psicológicos (OPAS,2021). Da mesma forma, é preciso entender que nem todas as pessoas com transtornos depressivos apresentam os mesmos sintomas. A gravidade, frequência e duração variam dependendo do indivíduo e de sua condição específica.
O quão presente a depressão está em nossas vidas?
A depressão é um transtorno mental comum, mas sério. Percebo na prática clínica que praticamente todos conhecem ao menos uma pessoa que já experienciou a depressão. Em todo o mundo, estima-se que mais de 300 milhões de pessoas, de todas as idades, sofram com esse transtorno ou condição.
Essa condição interfere na vida diária das pessoas, em sua capacidade de trabalhar, dormir, estudar, comer e aproveitar a vida. A depressão é a principal causa de incapacidade no trabalho em todo o mundo e contribui de forma importante para a carga global de doenças.
No pior dos casos, a depressão pode levar ao suicídio. Cerca de 800 mil pessoas morrem por suicídio a cada ano, o que a torna a segunda principal causa de morte entre pessoas com idade entre 15 e 29 anos em nível mundial (OPAS, 2021).
Como se faz o diagnóstico?
É muito importante buscar uma profissional qualificada para um diagnóstico adequado. As psicólogas clínicas e psiquiatras são as profissionais que trabalham pontualmente com essa realidade e possuem a experiência necessária para tal avaliação.
A profissional deve começar fazendo muitas perguntas para avaliar os sintomas. Por isso é muito importante responder sobre o que se está sentindo. Não só os sentimentos e/ou emoções são considerados, mas também comportamentos, rotina e contexto.
Abaixo relaciono os sintomas mais comuns de quem pode estar com depressão:
– Tristeza, angústia, sensação de vazio.
– Irritabilidade, desespero.
– Pouca ou nenhuma capacidade em sentir prazer.
– Cansaço, desânimo, falta de energia.
– Falta de interesse, iniciativa e vontade.
– Pessimismo, pensamentos negativos.
– Insegurança, baixa autoestima, medo.
– Diminuição da libido.
– Diminuição ou aumento do apetite.
– Insônia ou excesso de sono.
Importante: a depressão não se caracteriza apenas por um desses sintomas ou apenas quando todos estão presentes. A comunidade científica tem vários acordos que se desdobram em manuais que orientam como a frequência e quantidade de sintomas devem ser considerados para fechar um diagnóstico de depressão.
Por isso, repito: é muito importante o paciente não fazer isso sozinho, pois são muitas variáveis a serem consideradas para fechar um diagnóstico: eventos traumáticos, relações humanas e de trabalho, modos de resposta a situações de estresse, violências, etc.. Por isso a importância de se buscar uma profissional experiente e com boa qualificação.
A depressão para a psicologia!
A psicologia acolhe várias escolas do conhecimento para entender o sofrimento psíquico. Cada uma vai explicar a depressão de uma forma. Todas as escolas desenvolveram teses robustas passando por crivos da comunidade científica. Vou me ater aqui às terapias comportamentais com as quais eu trabalho.
Na TCC (Terapia Cognitiva Comportamental), a investigação ocorre em torno do que chamamos de “Tríade Cognitiva”: visão de si, do mundo e dos outros. Então muitas perguntas são feitas sobre o que você pensa de seus relacionamentos e como estes pensamentos produzem emoções.
No decorrer do caminho distorções cognitivas podem ser identificadas, como erros sistemáticos na percepção e no processamento de informações. Por exemplo: você se acha “100% incapaz” e quase ninguém pode refutar essa crença. Mas quando levantamos sua biografia é possível observar que você tem muitas habilidades, conquistas e resiliência. Então com quanto desses “100% incapaz” podemos realmente concordar?
Nas Terapias Comportamentais buscamos encontrar os déficits nos mecanismos de reforçamento, aquilo que estimula um comportamento a se repetir ou ser eliminado. É comum pacientes chegarem na terapia depois de uma perda muito significativa e óbvia, tal como a morte de uma pessoa amada. O mesmo acontece no fim de um relacionamento, na não obtenção de um resultado desejado, na perda de um emprego, etc.. Os efeitos da perda súbita daquilo que estimulava você a fazer algo ou a se sentir bem podem se tornar graves.
A psicoterapia vai buscar desenvolver e encontrar novos estímulos, reforços alternativos para que a pessoa volte a sentir e agir de uma forma que se sinta bem. É o que chamamos de criar um “repertório comportamental”.
Situações de violências, assédios ou um ambiente extremamente abusivo são igualmente levados em consideração, razão porque muitas vezes a psicoterapia caminha para mudanças necessárias no ambiente do paciente para mudar ou eliminar uma situação que é determinante na produção do sofrimento.
O tratamento medicamentoso e prescrito por uma psiquiatra pode auxiliar na recuperação, bem como, ser necessário para uma melhora ou manutenção do humor. REFORCANDO QUE SOMENTE MEDICOS PODEM PRESCREVER MEDICACAO E O PSIQUIATRA E O PROFISSIONAL MAIS ADEQUADO PARA ESTA CONDICAO.
Assim como a maioria das doenças, estilo de vida conta muito!
Como falamos, a depressão é resultado de uma complexa interação de fatores sociais, psicológicos e biológicos. Então atividade física, boa alimentação, relação com trabalho e estilo de vida em geral ajudam demais na prevenção e tratamento.
Busque ajuda!
Com o tanto de informação que somos bombardeados frequentemente, muitas pessoas chegam à psicoterapia confusas sobre se o que estão sentindo se pode ser depressão ou não.
Vivemos uma epidemia da positividade tóxica, onde sentir tristeza podem ser sentenças de depressão ou falta de esforço. Nada mais distante da realidade.
Por isso é importante buscar profissionais que caminham com a comunidade científica e estejam atentos aos temas da contemporaneidade.
Profissionais que se limitam a apontar somente o “esforço interior” ou a “capacidade individual” podem acabar por gerar um peso maior nas suas costas, lhe responsabilizando totalmente pelo que faz, sente e pensa.
Todo sofrimento trazido para a psicoterapia, assim como seus fatores e sintomas, deve ser ponderado em um diálogo aberto e constante com temas como: relações de trabalho, LGBTFobia, questões de fé e espiritualidade, violência contra mulher, negacionismo científico, estresse pós traumático decorrente das violências urbanas e desigualdade social. Com a depressão não é diferente.
O trabalho árduo da psicóloga está em mapear como funciona a relação do indivíduo com o meio e então mediante essas informações construir pontes possíveis de serem atravessadas.
O tempo de tratamento depende para cada um e vários fatores como recursos materiais e psicológicos, suporte, tempo de terapia e circunstâncias que precisam ser modificadas. Mas, espera-se que após 3-6 meses de psicoterapia haja redução dos sintomas graves.
Nem sempre conseguimos mudar um jeito de pensar e sentir totalmente! E essa mudança é a maior ânsia de quem está com depressão e busca ajuda. Porém, na maioria das vezes, é possível construir “um meio caminho” e interpretar as situações de uma outra forma que contribua para diminuir a intensidade das emoções. A beleza da psicoterapia é que esse meio caminho, o atravessar até a metade da ponte, você não faz sozinho e não vai depender só de seu esforço!
É um trabalho conjunto. Cheio de acordos, dores, amores, confrontos e solidariedade.
Depressão. OPAS, 2021. Disponível em: https://www.paho.org/pt/topicos/depressao .Acesso em: 05/02/2021
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