Por que seguramos tanto o celular?

Eu seguro o celular, tu seguras, todos seguramos!

Quem nunca: olha o celular, pega na mão e fica por isso mesmo? Assim que pegou na mão já lembra que não tem mensagens para checar, mas só de pegar o aparelho já sente um alívio e sabe deus por quê! Cinco minutos depois da uma “ansiedadizinha” no peito e pega o celular de novo para apenas lembrar, novamente, que não há mensagens.

Mas peraí! Já que estamos aqui, vou dar aquela rolada no Instagram/ Facebook, vai que tem alguma coisa. Rola, rola e rola. Em cinco minutos quantos posts rolaram? Uns trinta, provavelmente. Lembra o que cada um dizia? Bah! Nem lembro o que vi na verdade, mas já me deu uma aliviada, sei lá , uma distraída! Dez minutos depois vem a necessidade novamente e dá mais uma rolada no feed da mídia social.

Identificou-se? Eu duvido muito que você aí não faça isso. Assumo: faço parte dessa galera que vive rolando o feed de notícias e cinco minutos depois não lembra o que leu ou viu!

Pois então. Muitos são os assuntos relacionados a saúde mental e mídias sociais e pretendo explorar muito essa relação. Porém, escolhi escrever por partes, até porque o nível de tolerância das pessoas ao ler um “artigo blogueiro” está cada vez mais curto. Neste post aqui vamos falar sobre a necessidade de manter o smartphone em nossas mãos!

Lembre-se de algo: eu falo das pessoas de uma maneira geral. Isso não quer dizer que o que escrevo pode ser aplicado a todas as pessoas indistintamente. Cuide com as generalizações!

Agora, se você se identificar com este post, pegue-o para você, reflita e partilhe com pessoas que se interessam pelo assunto!

Dados recentes apontam que “o internauta brasileiro fica, em média, nove horas e 14 minutos por dia conectado” (G1, 2018). Vamos combinar, é bastante tempo!

Já existem muitas teorias, cientistas e profissionais falando sobre a dependência digital e como se livrar dela. Isso soa até como uma contradição. A gente não consegue se livrar do mundo digital, pois já não conseguimos existir fora da internet!

Portanto, ao invés de buscar maneiras de como “se livrar dela”, optei por buscar entender melhor a relação entre humanos e internet. E vou te dizer: tenho encontrado muita coisa. Neste momento, focarei sobre conectividade. Enquanto escrevo, meu celular está ao meu lado e, de vez em quando, dou uma olhada. Moro atualmente em Nova York, enquanto família, amigos e minha comunidade permanecem no Brasil. Por conta disso, percebi que meu tempo segurando o celular nunca foi tão alto! Minha necessidade de me sentir conectada com os que eu amo só aumentou com a distância geográfica.

Esse é um dos fenômenos mais óbvios relacionados à dependência das mídias sociais: a necessidade de estar com as pessoas. Isso já existia antes. Aliás, sempre existiu. No entanto, até então nos juntávamos presencialmente com as pessoas: um café, a balada, o trabalho, uma prosa e por aí vai. Hoje não precisamos nos movimentar muito para isso. O grupo do WhatsApp pode substituir o café com as colegas enquanto as fotos no Instagram da praia satisfazem a nossa necessidade de se sentir na praia!

Mas será que é a mesma coisa?

“A mídia influencia não somente o circuito comunicativo de emissor, mensagem e receptor, mas também a relação de troca entre a mídia e outras esferas da cultura e da sociedade” (HJARVARD, 2015, p.52). Então se antes tínhamos um certo desprezo com novas tecnologias e não acreditávamos que a internet poderia substituir relações humanas, isso hoje já mudou. Para esse autor, a relação de troca que temos com as mídias sociais produz mudanças velozes no nosso sistema de crenças, nos nossos valores e no jeito que nos comportamos no mundo.

Se antes eu não gostava de melancia, mas agora a fruta está constantemente no meu feed, minha blogueira preferida come melancia, sem até perceber um dia estou eu lá na feira provando um pedaço de melancia, comprando uma almofada de melancia e usando uma camiseta com estampa de melancia. O problema não é, em si, a melancia. O problema aqui é a velocidade com que as coisas acontecem. A relação entre o que vemos nas mídias sociais com as nossas cognições (pensamentos) é tão rápida e intensa que não percebemos as mudanças contínuas que estamos experienciando.

E por que me submeto a tal velocidade de informações? Mesmo sabendo que seria muito melhor sair na rua e estar com as pessoas presencialmente, insisto em ficar só no virtual? Porque as mídias sociais nos dão a sensação de pertencimento! Essa possibilidade às vezes nos ajuda sim a nos conectar a uma comunidade, enfrentar fantasmas e proporcionar contatos que presencialmente seriam impossíveis.

Preste atenção, não estou aqui para demonizar a internet, mas sim compreendê-la para melhor usá-la.

Porém, considerando a velocidade e intensidade a que estamos expostos, boa parte do que você vê quando segura o celular faz você realmente pertencer a algo ou é apenas a ilusão de que está conectado a algo? Você realmente tem uma conexão concreta com tudo que vê naquela tela?

Em sua belíssima obra “Sozinhos juntos”, a autora Sherry Turkle aborda, com respeito à ciência, como a tecnologia está mudando a forma como as pessoas se relacionam umas com as outras e como constroem suas vidas internas:

“Nossa resposta neuroquímica para cada chamada de telefone celular parece uma resposta eliciada para uma pulsão de “busca”. Uma motivação profunda da psique humana. Conectividade se torna um desejo. Quando recebemos um texto ou um e-mail, nosso sistema nervoso responde dando uma dose de dopamina. Somos estimulados pela conectividade em si. Aprendemos a exigi-la, ainda que nos esgote.” (TURKLE, 2011, p. 227, tradução nossa.)

Vamos parar e refletir uns minutos sobre isso. Você aí com você mesmo e eu aqui comigo. É necessidade de conexão que estamos buscando ao acessar excessivamente nossos telefones? Se for, que tipo de conexão estamos precisando?

Penso que o tipo de conexão é o elemento que mais precisamos investigar em nossas vidas.

A internet nos estimula a pensar que precisamos estar conectados a várias coisas. Por exemplo: você precisa ter as maquiagens da sua blogueira preferida; precisa aparecer em vídeos como tal youtuber; precisa ter o mesmo estilo de vida de tal pessoa que você segue porque essa pessoa parece ser muito feliz e bem sucedida; precisa assistir a todas as séries e filmes que tal perfil no Instagram recomenda, e por aí vai uma infinidade de conexões propostas.

Então as boas perguntas que precisamos nos fazer são: que tipo de conexão estamos buscando e quais conexões eu realmente preciso? São perguntas para uma vida inteira, ok? Não se sinta pressionada(o) a saber respondê-las ou a querer respondê-las de uma vez. E se bater um sofrimento intenso, procura alguém para conversar ou uma psicoterapia.

Penso que, às vezes, estamos apenas carentes de conexões perdidas, de relacionamentos que ficaram lá para trás e ainda sentimos saudade ou de relacionamentos rompidos que não tiveram um fechamento. Carentes de conexões para assistir a um bom filme no cinema, comer um bolo na padaria ou desabafar um problema e ter uma ajuda para resolver (ou, às vezes, só escutar mesmo). Talvez estejamos carentes de conexões comunitárias, de fazer parte de um grupo que se junta para lutar e falar sobre a vida e sobre coisas que acreditam.

Quem sabe, o motivo pelo qual eu acabo checando o celular a cada cinco minutos e rolando feeds de mídias sociais seja a falta dessas conexões, pois não vejo a hora de sentar para tomar um café com as pessoas que amo! O que você pensa a respeito?

Acredito que para começar esse imbróglio que é a internet este post pode nos dar uma boa direção. O caminho é longo e desconhecido. Afinal, os excessos de relações virtuais podem trazer um monte de outros problemas: como desenvolver habilidades sociais estando mais expostos a robôs do que humanos? Como estar na internet e filtrar as informações? Como não ficar ansiosa com as mídias sociais? Mas esses já são temas para outros posts. Quero te ouvir (ou te ler, melhor dizendo). Escreve para mim que a gente se conecta e constrói novas conexões!

REFERENCIAS BIBLIOGRAFICAS:

HJARVARD, Stig. Da Mediação à Midiatização: a institucionalização das novas mídias   PARÁGRAFO. JUL./DEZ.2015 V. 2, N. 3 (2015) ISSN: 2317-4919

Brasileiro é um dos campeões em tempo conectado na internet. Por Em Movimento, 22/10/2018. Disponível em: https://g1.globo.com/especial-publicitario/em-movimento/noticia/2018/10/22/brasileiro-e-um-dos-campeoes-em-tempo-conectado-na-internet.ghtml

TURKLE, Sherry. Alone Together. New York: Basic Books, 2011.

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