Qual realmente é o nosso poder de escolha?

Muito se ouve: “mas foi escolha sua!”, “se tivesse escolhido melhor…”, “na época eu não sabia fazer uma escolha melhor”.

Já parou para pensar até que ponto realmente temos a possibilidade de fazer escolhas na vida? Quantas vezes julgamos alguém por ela/ ele não fazer as escolhas que entendemos serem as melhores para ela/ele?

Escolher não é tão simples assim. Existem vários pontos que precisamos analisar quando entramos nesse tema: recursos materiais e econômicos, emocionais, psicológicos, circunstâncias e etc.

Como escolhemos?

Quando tomamos uma decisão sobre algo, muitas variáveis estão envolvidas. Vou começar falando aqui sobre repertório cognitivo.

São Bento da Sapucaí – SP – Brasil

Para eu escolher algo, primeiramente eu preciso “pensar” (cognição) que aquilo é possível para mim. Por exemplo, decido praticar um esporte X em que não tenho muitas mulheres como referência e consequentemente acredito “não sei se mulher devia fazer isso”. Para eu topar praticar o esporte X, terei que buscar imagens, referências, ajuda e começar a me imaginar praticando aquele esporte. Se eu pensar de forma determinante que “isso não é pra mim, não é lugar de mulher”, podemos refletir aqui se nessa estrutura de crenças existe uma possibilidade de escolha; já que a possibilidade de se imaginar fazendo não é possível.

Outro exemplo é estar em relacionamentos abusivos / tóxicos. Muitos indivíduos vivem baseados em crenças como “relacionamentos são assim mesmo, sempre tem alguém que é dominador e o bonzinho que leva ”, “não vou conseguir algo melhor, vou ficar com essa pessoa, melhor do que ficar sozinha (o)”. Notem que o indivíduo mal consegue cogitar que existe outra possibilidade de existir em relacionamentos. É como se viver determinado tipo de relacionamento fosse a única possibilidade e aí o(a) parceiro(a) pode até mudar, mas o modelo de relacionamento é único. Para sermos capazes de escolher algo, as possibilidades precisam existir em nossas mentes primeiro!

As emoções têm um fator quase “sentenciador” para as nossas escolhas. Aqui é onde tomada de decisão pode ficar complicada. As emoções podem nos ajudar muito a entender nossos pensamentos, mas também podem servir como uma armadilha. Nosso corpo sempre vai fazer de tudo para economizar energia; não é diferente com o nosso cérebro. Toda vez que tentamos ampliar nosso jeito de pensar, demandamos mais de nosso cérebro, o que gera um desconforto. É quase que uma defesa, algo assim:

“Susana, para de pensar isso, olha o trabalho que isso vai te dar, sempre fosse por esse caminho, continua aí que dá menos trabalho”!

Não é diferente com situações que precisamos agir diferente do que o habitual. Digamos que você esteja em um relacionamento que não te faz bem, e a escolha “óbvia” seria você não continuar nessa relação. Então, toda vez que você reflete sobre isso, você se sente insatisfeita. Porém, quando pensa em ampliar as escolhas, como “vou terminar essa relação”, você se sente terrivelmente triste. Então, não continua a pensar sobre aquilo, pois, quer evitar as emoções desconfortáveis que outras escolhas podem proporcionar. O problema aqui é que cultivamos uma “equação das emoções”: sofro porque estou nessa relação, mas não penso em outras possibilidades porque irei sofrer, então continuo sofrendo com o que tenho. Não devemos ter medo das emoções, e sim entendê-las melhor. Evitar emoções que podem doer por medo de sofrer só vai te fazer permanecer em um sofrimento crônico, um sofrimento eterno. Sabe aquela de “tira o esparadrapo rápido que dói menos do que levar dias puxando”? Existem momentos da vida que é sobre puxar o esparadrapo de vez.

Além das emoções, os recursos materiais e econômicos são provavelmente os mais determinantes nas escolhas da vida. Vivemos em um país em que a desigualdade social samba em nossas cabeças e para alguns a largada começa muito atrás de outros. Certas possibilidades custam caro: estudos, abrir um negócio, a conta de luz, o preço da carne ou adquirir a casa própria.

Um bom começo é organizar em um papel os preços de suas escolhas. Os custos e viabilidades financeiras para seguir com determinados caminhos. Entenda aqui que antes do dinheiro vem o repertório cognitivo, primeiro você precisa saber o que quer e para aonde ir. Sabe aquela história “fulano tem tanta grana, se eu fosse ele só viajava ou estudava X graduação”, “ela não precisa estar nesse relacionamento violento, é independente financeiramente, podia prosseguir na vida”. Para alguns, arrisco dizer a maioria, as escolhas e as possibilidades da mesma se iniciam nas nossas mentes.

Como ampliar as escolhas

Se as escolhas começam com o “nosso jeito de pensar”, como ampliamos? Claro que você está esperando eu dizer “Psicoterapia”! Vindo de um texto escrito por uma psicóloga não é surpresa. Sim, psicoterapia vai te ajudar demais a pensar situações de diferentes formas e manejar as emoções que surgem no caminho. Psicoterapia é para isso. Então se você curte e tem condições, vai fundo!

Mas a psicoterapia não nos salva de tudo e a todos. Podemos nos valer de outras fontes para nos ajudar a pensar diferentes possibilidades de existência: arte, livros, filmes, séries, diálogos e debates com amigos, família, etc.

A arte tem como uma das suas principais funções nos provocar a pensar algo de uma forma diferente, ampliada! Uma pintura que nos provoca a olhar nossos corpos sob uma nova ótica, uma música que nos dá palavras para descrever algo que sentimentos e não conseguíamos dizer, um filme que nos faz refletir como uma história pode terminar de um jeito diferente do que pensamos.

Da mesma forma, conversar com as pessoas é primordial para acumular recursos cognitivos para as nossas escolhas. É conversando que trocamos experiências e ideias. É também onde nossas ideias são confrontadas, porque nem sempre estamos certos, ok?

Se arriscando!

Nada é 100% seguro nessa vida. Escolher implica em tomar risco, escolher aqui e renunciar ali. Então sempre que topamos um caminho diferente ou ousado é provável que teremos perdas de um lado. Acreditar que é possível viver uma vida linear e controlando tudo é sustentar um delírio. Vivemos lidando com as circunstâncias, essas às vezes nos dão um leque de escolhas e por vezes nos trancam em uma cela.

Antes de jogar pedra em alguém por ela não ter feito as escolhas que você acredita que seriam as melhores, respira e reflita se todas essas possibilidades que você supõe realmente existiram para a pessoa. Não vestimos o sapato do outro. Só o outro sabe se aquele par de sapatos o levará para diferentes caminhos ou para a estrada de sempre!


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