Tomar decisões: o comportamento que não tem receita, mas diretrizes ajudam!

Uma das maiores demandas na clínica psicológica é “Como eu decido isso?”

Muitas vezes tem-se a esperança de que a psicoterapeuta tomará essa decisão. A notícia que tenho para dar é: salvo situações de violação de direitos humanos, a psicoterapeuta não fará isso, mas sim auxiliará o cliente em seu processo de tomada de decisão.

Mas o que atrapalha esse processo de decidir? Entre muitas variáveis, a ansiedade! Esta pode ser a maior inimiga.

Como já colocamos em outras conversas, ansiedade é uma resposta fisiológica a uma situação que seu cérebro interpreta como perigosa ou ameaçadora. Então toda vez que você interpreta uma situação como uma grande ameaça seu cérebro vai lhe preparar para correr de uma manada de elefantes. Você vai suar, coração disparar e estômago embolar, tudo porque o que era para ser sobre falar com o chefe sobre plano A ou B que se transformou em uma fuga dos leões.

Esperando a resposta cair do céu?

Outra variável que surge no momento da tomada de decisão é a distorção cognitiva. Basicamente, é quando você interpreta uma situação de forma equivocada e distante dos dados de realidade.

Por exemplo, você está muito ocupado com sua vida profissional e afazeres pessoais no fim de semana. Porém, sua amiga quer vê-lo. Você não diz não, pois acha que ela vai interpretar isso de forma negativa. Então você sofre pelo o que você acha que ela vai pensar.

Contudo, o que aconteceria se você dissesse a ela: “este fim de semana está muito complicado, não consigo ir, mas com certeza vou numa próxima”? Ela poderia te responder: “Claro, fique tranquilo, tenho percebido que você está sobrecarregado”. Nesse cenário, nada do que você supôs aconteceu.

Veja que, se continuasse decidindo sobre o que acha que a outra pessoa está achando e não nas suas necessidades concretas, teria tomado uma decisão possivelmente equivocada.

Outra coisa que faz parte das distorções são as expectativas! Às vezes, a vida demanda coisas que não são resolvidas no 8 ou 80, no preto no branco ou no sim ou não. Existem complexidades e em cada nuance haverá riscos. Então não necessariamente existe a decisão certa, mas sim a que produz menos risco de danos.

Por isso, gastar tempo na busca pela decisão perfeita vai te gerar mais ansiedade e consequentemente exaustão física.

Circunstâncias ambientais e, consequentemente, os recursos materiais e subjetivos para a tomada de decisão  igualmente influenciam. Entende-se circunstâncias ambientais como por exemplo mudar de casa, no momento é possível? A logística do trabalho para a casa será interessante? Qual a razão de mudar de residência? Alguém depende de você então está sendo obrigado a se mudar? Os recursos materiais são sobre dinheiro e materiais que você precisa para executar tal decisão. É possível custear essa mudança de residência?

E os recursos subjetivos é sua relação emocional com a decisão! Você gostaria de mudar e depois que estiver na casa nova, vai se adaptar? Está se mudando porque o parceiro deseja, e o que você quer? E se não é mudar de casa, vai resistir morar em um lugar que não gosta?

Esse é um dos motivos pelos quais geralmente a resposta de psicólogas diante daquela pergunta inicial é: “tudo depende”. E as pessoas não curtem muito. Sim, porque tudo depende das necessidades da pessoa, das pessoas envolvidas, dos recursos financeiros e ambientais. Sem falar dos recursos subjetivos: você tem condições emocionais para sustentar tal decisão? O que vai lhe gerar menos sofrimento para si e os outros? Essas questões, tão importantes no processo de tomada de decisão, demandam respostas que por vezes merecem tempo e dedicação para encontrá-las.

Mas você quer mesmo é saber como decidir melhor, certo?

Aprender a decidir é um processo individual e cada pessoa precisa encontrar seu método.

Alguns encaram mais como um processo criativo: formulam vários cenários na mente e a partir deles elaboram uma resposta. Existem pessoas que precisam classificar tudo em caixas ou listas, fazendo uma análise criteriosa dos riscos e necessidades. E há pessoas que brincam de fechar os olhos e apontar para uma direção.

Nosso cérebro funciona como uma matriz e cada área de nossa vida está interligada por pontos. Quando precisamos resolver um problema é muito importante utilizarmos diferentes experiências de nossa história de vida para melhor decidir. Abaixo uma matriz com os pontos mais importantes a considerarmos em uma tomada de decisão:

No processo terapêutico, a psicóloga vai explorar junto ao cliente experiências anteriores para identificar se a pessoa já passou por uma situação semelhante, quais foram as estratégias para solucionar e qual foi a reação diante das consequências. Dessa forma fica mais fácil prever o que pode dar certo ou não e o que pode ser sustentável ou não na tomada de decisão para aquela pessoa. A partir desse conjunto de informações é que a psicóloga auxilia o cliente na identificação dos demais elementos dessa matriz, como os recursos materiais, circunstâncias ambientais e pessoas envolvidas, de modo a apoiá-lo no processo de tomada de decisão.

Para finalizar é importante reforçar algo: não existe decisão perfeita. A perfeição é um dogma. A vida é cheia de surpresas, solavancos, perdas e ganhos. Esperar demais que a vida seja perfeitinha, um 2 + 2 = 4, é aumentar os riscos da frustração.

Para quem sofre em decidir, o processo terapêutico tem a ver mais com a possibilidade de se perdoar, se culpar menos e estar pronto para as surpresas da vida em vez da batalha eterna em acertar as previsibilidades.


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