Vivendo em Nova York!

Quando um brasileiro ouve que alguém está indo morar no exterior, em especial nos EUA, normalmente recebe a notícia em dois extremos: “tens certeza que conseguirás ficar longe de todos? ou “minha querida, foste salva, estás absolvida de teus pecados e adentras ao paraíso, sorte tua”!

Não foi nossa primeira vez morando fora. Então tive que fazer um certo esforço para explicar para as pessoas que morar fora não é romântico; é incrível, mas não é desse jeito que geralmente o povo imagina. Tentei explicar que passas o dobro de perrengues que se vive no Brasil quando vais para outro país, mas é justamente por causa dessa sofrência dos perrengues que és transformada. Muitos não davam ouvidos ou me olhavam com cara de paisagem por não compreender do que eu falava. Descobri que isso é muito mais difícil de traduzir do que ter que se comunicar em outra língua.

E olha que dessa vez não era “só” morar no exterior. Viemos para Nova York. Mesmo morando há alguns anos em São Paulo antes de vir para cá, Nova York te permite experienciar o ápice da vida cosmopolita 24 horas por dia. NYC é como Billy Joel diz numa canção: “I’m in a New York state of mind”. NYC é um jeito de existir e isso por si só faz uma cisão na tua personalidade. Sinto que assim que pus os pés na cidade, a Lady Liberty (Estátua da Liberdade) me recebeu com mil facas, cortou minha personalidade em mil pedaços, olhou para mim e disse: “não adianta querer juntar como era antes, sugiro pegar esses pedaços e fazer tudo de novo, preferencialmente uma personalidade cosmopolita, abstrata e contemporânea”!

Antes de chegar, projetei meu ano aqui para estudar na universidade e fazer cursos inusitados. Como já tinha morado fora, eu sabia que precisava circular em espaços diferentes para conhecer pessoas e estabelecer laços. Então abracei todas as oportunidades possíveis. Exceto os cursos na universidade e em alguns institutos de psicologia, todos os outros cursos que fiz foram gratuitos com grandes referências das respectivas áreas. Toda semana tinha aulas de conversação avançada em inglês num lugar incrível que é a biblioteca municipal. Fiz cursos de filmagem e edição de vídeo no canal local com os melhores equipamentos da área. Realizei workshops de escrita com jornalistas e aprendi a criar um site! E tudo de graça!

A melhor parte destas aulas? Obviamente as pessoas! Com elas aprendi que existem infinitas formas de existir nesse mundo. Que nem a minha, nem a de ninguém é a melhor ou a mais correta. Desde que respeites a existência do outro, está tudo bem. Conseguir trocar essas formas de viver ou existir é a coisa mais divertida da vida!

Lógico que no início não era confortável. Toda vez que iniciava uma aula nova ou alguém da classe me convidava para um café, gerava uma ansiedade em mim. Será que eu quero mesmo? Mas fulano é tão diferente de mim! Que preguiça! Acho que não vão gostar de mim! Meu inglês não é tão bom assim! Milhares de inseguranças e resistências vinham à minha mente e hoje fico feliz por ter dado pouco ouvidos a elas!

Morar no exterior, principalmente se queres aprender a falar outro idioma, implica em uma coisa: precisas falar muito! Isso quer dizer que terás que conversar, convidar pessoas para sair, respeitar as diferenças e – acima de tudo – querer ouvir! Vir para cá e se trancar em casa é desperdiçar o que tem de melhor nessa experiência. Misture-se mais e com todos sempre! By the way, faça isso aí no Brasil; nosso país está precisando se misturar mais.

Acho que precisamos dar mais valor a isso. É muito fácil, principalmente nos tempos polarizados de hoje, perder aquilo que o brasileiro tem de mais lindo na minha opinião: a habilidade de ter uma boa prosa!

Por aqui, é unânime o amor que se tem com os brasileiros. Atribuo esse amor a essa nossa capacidade de se conectar as pessoas, de querer ficar horas tomando café ouvindo histórias e de expressar constante alegria em encontros. O mundo nos admira e ama, te garanto isso! Só falta um povo amar o Brasil: os brasileiros! A gente sabe tão pouco da nossa história e está constantemente achando que a grama do vizinho é mais verde. Retorno ao Brasil em breve e sinto que o desafio é lidar com a baixa autoestima do brasileiro.

Mas voltando à cidade, penso que NYC talvez seja o melhor lugar para viver essa troca, essa interação. NYC consiste basicamente em milhares de pessoas de cada canto, cantinho e cantão do mundo, convivendo civilizadamente (às vezes não tanto) num pequeno quadrado e não estando nem aí se és alto, baixo, magro, gordo, vestido ou pelado, teu gênero, profissão, ou o que tens e o que não tens. As pessoas literalmente não te julgam pela tua aparência e de onde és, porque na verdade ninguém está nem aí para ti. És só mais um. Tu não existes aqui e quando andas nas ruas és só mais uma alma que perambula. Tu não és especial em nada, só mais um ocupando um espaço no metrô! E não bloqueia a porta do metrô! Em um dos diversos totens de wi-fi espalhados pela cidade, havia uma frase que dizia assim: “NYC é a única cidade do mundo em que corres o risco de seres atropelado por um pedestre na calçada”.

Apesar de parecer hostil, ser só mais um se mostrou fascinante! Esse “state of mind” nova-iorquino te dá a oportunidade de descobrir o que precisas e de quem precisas para existir, assim como te dá aquele chute na bunda para ires atrás do que te preenche; caso contrário, definhas no American Dream do consumo! Quando brasileiros vêm turistar em NYC, geralmente ficam deslumbrados com o poder de comprar, com os cenários cinematográficos e esquecem que o lance é tentar puxar uma conversa com alguém que vive aqui, ou observar quanta diversidade e liberdade se cultiva pelas ruas da terra da Lady Liberty. NYC tenta te expulsar no início, mas depois do baque, te abraça e te dá tudo o que precisas para viver aqui!

NYC é tudo isso de bom no jeito dela. NYC é diva e divo, que anda com um saltão enorme não se importando em quem pisa. Falo isso para dizer de um estado que essa cidade produz: amor e ódio! É uma cidade muito ocupada, todos estão sempre correndo, te empurrando e olhando com aquela face: hurry! Te apressa! A vida é curta!

A cidade é caríssima, ao ponto em que perdes noção do que é caro ou barato. Quando vais a New Jersey, aqui do ladinho, percebes que estás pagando muito caro por coisas muito baratas.

NYC pode ser mágica, o que não quer dizer que os EUA os sejam! Aqui também se come mal, não tem saúde pública, as pessoas estão constantemente endividadas e o país possui os piores índices em saúde mental do mundo! É um verdadeiro show de Truman e o americano que se dá conta disso está fazendo de tudo para se refugiar em outro país. Procuram principalmente um lugar que ofereça saúde pública e educação; em que a população tope passar horas conversando e tomando um café.

É importante entender mais uma coisa: NYC não é os EUA! NYC é um gueto dentro deste país que preserva a diversidade, luta para manter a cultura do transporte público (por sinal, aqui se anda muito, sinônimo de luxo aqui é andar de transporte público e não de carro), faz de todos os lugares espaços públicos porque todos têm direito a acessar lindas paisagens sem discriminação de status social ou qualquer outra coisa.

Se procuras uma experiência em viver num espaço com pessoas de diversos gêneros, com cabelos de todas as cores, com ninguém se importando com o jeito que te vestes, levando uma vida diária em que tudo se faz a pé ou por metrô e uma vida coletiva muito intensa nos espaços públicos e viver contando as moedas, pois um hot dog aqui pode custar um churrasco de domingo no Brasil, seja bem vinda (o)! Os perrengues de NYC te ajudarão a produzir uma existência mais colorida, diversa e coletiva!

Contato

Envie um email: psi.susanasoares@gmail.com